A inocência de um Ogan!

Lágrimas rolam pela face do jovem rapaz.

 

Pai Velho deixa o filho nessa experiência por alguns instantes... depois perguntou-lhe:

-E agora filho o que está vendo?

-Vejo o cruzeiro todo iluminado, como se tivesse milhares de lâmpadas acesas dentro dele.

-Agora filho, olhe para seu lado direito e diga quem você está vendo.

-Vejo ou sinto, não sei dizer ao certo, meu Pai, mas um ser de luz que me dá uma sensação de paz, tranquilidade, segurança e confiança.

-Tá vendo filho, esse sou eu em meu ponto de força, atuando com as energias irradiadas dentro das suas necessidades.

-Mas o senhor não é preto e nem velho!!!

 

Nesse momento Pai Velho solta outra gostosa gargalhada.

 

-Pois é meu filho, nem tudo o que vê é o que parece ser e nem tudo o que é, é o que você vê.

-Os mistérios da espiritualidade só compete à espiritualidade saber o que é e para o que serve.

-Sabe por que meu filho?

-Por que Paizinho?

-Porque o pouco que vocês sabem, julgam que já sabem muito e nós sabemos que só conhecemos um pouquinho da grandiosidade que é a sabedoria Divina.

-Agora filho, cada vez que tocares seu atabaque saiba que também tens compromissos com a execução dos mistérios sagrados e que depende do seu coração e da sua mente para que as energias certas e necessárias sejam atraídas para que nós trabalhemos em benefícios daque4les irmãos que recorrem aos nossos auxílios.

 

Que a sua mente possa estar sempre ligada ao Alto e o seu coração irradiando amor para que todos dentro e fora da corrente sejam beneficiados.

 

-Hoje filho, a espiritualidade trouxe um pouco de entendimento dos segredos das energias que são trabalhadas nas hostes celestiais. Cabe a você a partir deste pequeno aprendizado abrir-se mais para os conhecimentos, mas não esqueça nunca meu filho, que o crivo da razão e do bom senso devem ser sempre observados.

 

Pronto para terminar o nosso passeio filho?

 

O jovem respira fundo, dá uma última olhada em sua volta e confirma com um gesto de sim, ao abrir os olhos o jovem novamente compartilha com o Pai Velho uma gostosa gargalhada, agora ele sabe por que está sorrindo, sabe que a visão não consegue enxergar os verdadeiros mistérios contidos em um ponto riscado de um guia espiritual.

 

Sabe que a partir de agora seu respeito pelo plano espiritual está cada vez mais fortalecido e consciente de seu compromisso como intermediador com o alto, passará a observar mais, mas agora com os olhos do espírito e com o coração aberto para novas oportunidades de aprendizados.

 

Pai Velho ao terminar de cuidar de seu filho amado, abençoa-o em nome de Nosso Senhor Jesus cristo e despedi-se com mais uma gargalhada gostosa, sabe que por muito tempo as lembranças desse passeio trarão reflexões para a mente deste jovem que se determinou a servir o plano espiritual como médium intermediador das energias Divinas.

 

Com amor, tranquilidade, Pai Velho vai recolhendo os resíduos da vela, as folhinhas da erva, os farelos do cachimbo, coloca tudo no centro do ponto riscado, cruza o alto o embaixo, a esquerda e a direita e antes de deixar seu aparelho, dá uma última olhada em direção ao jovem que agora canta o ponto de agradecimento e subida dos Pretos velhos com mais amor do que nunca, juntos Pai Velho e filho Ogan, assistem o Portal de Luz se fechando no plano material.

 

Pai Velho mais uma vez cumpriu sua tarefa junto com seu filho...

 

Nenhum membro da corrente entendeu por que o jovem Ogan, caiu em prantos depois de encerrar os trabalhos, mas ele guardará no seu coração o presente que acabara de vivenciar com aquele ser de luz.

 

Salve os Pretos Velhos!!!

- Adorê as almas!!!

Tambores de mão

A inocência de um Ogan!

 

Sentado em seu banquinho, um copo com água, uma vela acesa, um galho de erva em cima do ponto riscado. Mais uma vez Preto-Velho vem trabalhar, vem trazendo sua humildade, sua calma, sua sabedoria...

 

Enquanto os trabalhos de atendimentos vão sendo encaminhados, Preto Velho observa o jovem que assumiu o cargo de Ogan da casa, que ostenta um conhecimento da responsabilidade pelos pontos cantados e pelos toques executados.

 

Jovem esperto, observador, atento a todos os movimentos dos médiuns e das entidades. Os trabalhos transcorrem como todos os dias de atendimento, os frequentadores de sempre e alguns que chegam pela primeira vez.

 

Quando os atendidos já passaram pelos seus tratamentos, chega o momento de cuidar dos elementos da corrente.

 

Pai Velho, direciona seu olhar amoroso ao filho que comanda o atabaque, convidando-o a vir em seu ponto.

 

O filho se aproxima todo cerimonioso, reverencia ao Paizinho, senta em um banquinho posicionado a frente do Preto velho. Entre uma cachimbada e outra, o filho vai falando sobre seus problemas, suas dificuldades, suas ansiedades e o Paizinho pede para que o filho olhe para o chão e diga o que está vendo; este responde: Seu ponto, meu Pai.

 

Preto Velho da sua risada tradicional, fazendo com que o filho também sorria.

 

-Filho, você sabe o que é um ponto riscado de um Guia Espiritual?

-Claro que sei, meu Pai

-Então me explica o que é.

-Ora meu Pai, é a identificação do Guia.

-E o que você vê no meu ponto?

-Vejo o desenho de duas estrelas, duas cruzes dentro de um círculo dividido em quatro partes.

-E o que você está satisfeito com meu ponto riscado?

-Claro que estou meu Pai, responde com firmeza e convicção.

-Pois então meu filho, eu quero convidá-lo para dar um passeio com esse Nego Véio.

Você aceita meu filho?

-Claro Paizinho, é só o senhor dizer quando e eu falo com o seu cavalo e nós vamos fazer o que o senhor determinar.

 

O Preto Velho dessa vez solta uma risada profunda e gostosa, fazendo com que o jovem também sorria, mas, sem saber por que estava sorrindo.

 

-Meu filho, eu to convidando pra ir comigo agora. Que ir?

-Então tá né? Paizinho, só não sei se o Guia Chefe vai deixar a gente sair, tá quase acabando a gira e eu tenho que bater para os Pretos Velhos subirem.

 

Mais uma vez Pai Velho solta outra gargalhada, dessa vez o jovem ficou mais confuso do que antes. Com calma e carinho, Pai Velho pega as mãos coloca na sua mão direita a pemba de trabalho e diz:

 

-Filho aquiete sua mente e seu coração, feche seus olhos.

-Sim Paizinho.

-Agora me dê sua mão e vamos caminhar juntos, lembre-se que estarei sempre ao seu lado. Passado alguns segundos, Pai Velho pergunta:

-Aonde nós estamos filho?

-No cemitério, meu Pai, bem em frente ao cruzeiro.

-E o que você vê no chão, meu filho?

-Vejo um círculo de luz fosforescente.

-O que mais meu filho?

 

-Vejo luzes azul clara e luzes branca saindo de dentro desse círculo grande, essas luzes exercem um poder de atração como se eu estivesse dentro do círculo e as luzes vão passando por dentro de mim, ao mesmo tempo sinto dores, sinto medo, sinto angustia, sofrimento, solidão, sinto um vazio... e agora todos estes sentimentos entram dentro desse círculo e de cima para baixo vem uma sensação de leveza, de paz, de alegria invadindo meu espírito. Uma felicidade que não posso explicar, meu Pai.